O Silêncio
- Matheus Abrahão
- 18 de mai.
- 9 min de leitura

O PRIMEIRO SILÊNCIO
Bauru.
Era a primeira vez que eu morava sozinho. Aos 28 anos, existia em mim aquela mistura de liberdade, medo e vontade de dar certo. Um novo emprego. Uma nova cidade. Uma tentativa sincera de construir minha própria vida.
Eu trabalhava em uma empresa de consórcios e, no começo, tudo parecia confortável. Minha chefe era divertida, expansiva, acolhedora. Daquelas pessoas que conseguem dominar o ambiente com facilidade e fazer você acreditar rapidamente que está seguro ali.
Ela me elogiava com frequência. Dizia que eu era muito bonito. Me ajudava em algumas vendas. Fazia pequenas gentilezas que, naquele momento, eu enxergava apenas como simpatia e incentivo profissional.
Hoje eu entendo que muitas situações abusivas começam exatamente assim.
Sem violência aparente.
Sem agressividade explícita.
Sem que a vítima perceba imediatamente que alguns limites estão começando a ser atravessados.
Durante uma confraternização da empresa, ela tentou me beijar. Eu desconversei. Sorri sem graça. Transformei o desconforto em brincadeira porque, naquela época, eu não sabia reagir de outra forma.
Eu era jovem. Ingênuo emocionalmente. E principalmente despreparado para entender o que estava acontecendo.
Até que um dia ela disse que precisava conversar comigo com urgência e perguntou se podia ir até minha casa.
Eu deixei.
E talvez essa seja a parte mais difícil de explicar para quem nunca passou por algo parecido. Porque o assédio nem sempre chega através da força. Às vezes ele chega disfarçado de confiança, proximidade e poder emocional.
Eu estava sentado no sofá quando ela simplesmente subiu em cima de mim.
Meu corpo travou.
Minha mente também.
Eu lembro mais da sensação de vergonha do que da cena em si. Vergonha por estar vivendo aquilo. Vergonha por não saber reagir. Vergonha por querer que aquilo acabasse o mais rápido possível.
Eu pedi para ela sair.
E depois disso, eu fui embora da empresa.
Não porque eu entendia meus direitos. Não porque eu sabia que aquilo era assédio. Na época, eu não sabia nem dar nome ao que tinha acontecido. Eu só queria esquecer. Fingir que aquilo nunca existiu.
Eu era assumidamente gay. Tinha namorado. E ela sabia disso.
Mas existia uma outra camada de silêncio em tudo aquilo:
eu era homem.
Naquele tempo, quase não se falava sobre assédio contra homens. Muito menos sobre um homem gay vivendo esse tipo de situação dentro de um ambiente profissional.
Então, além da dor, existia também o medo.
Medo de não acreditarem em mim.
Medo de acharem que a culpa era minha.
Medo de transformarem aquilo em piada.
Medo de parecer fraco.
Durante muito tempo eu diminuí esse episódio dentro da minha própria cabeça. Dizia para mim mesmo que “não tinha sido tão grave assim”. Como se invalidar a própria dor fosse uma forma de sobreviver a ela.
Mas algumas experiências deixam marcas invisíveis.
Elas ficam escondidas na maneira como você passa a desconfiar das pessoas. Na vergonha que nunca deveria ter sido sua. No silêncio que você aprende a carregar para evitar julgamentos.
E talvez o mais doloroso seja perceber que eu não saí daquela empresa porque queria novos caminhos.
Eu saí porque aquele ambiente deixou de ser seguro para mim.
Durante anos, eu tentei fingir que isso não me afetou.
Mas afetou.
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O SEGUNDO SILÊNCIO

Eu fui convidado para fazer uma publicidade de um espaço de massoterapia. Era uma proposta simples: viver a experiência como cliente e depois divulgar o local nas redes sociais.
Na época, eu nunca tinha feito massagem. Nunca tinha frequentado clínicas daquele tipo. Tudo era novo para mim.
Fui recebido por um homem que se apresentou como dono da clínica e também responsável pelos atendimentos. Ele parecia seguro, comunicativo, profissional. E talvez seja exatamente isso que mais confunde a mente de alguém durante uma situação de abuso:
a aparência de normalidade.
Ele me levou até uma sala reservada.
A primeira coisa que me causou estranhamento foi o barulho da porta sendo trancada.
Ainda assim, eu tentei ignorar aquilo. Afinal, eu estava ali para trabalhar. Para fazer uma publicidade. Parte de mim queria acreditar que tudo fazia parte do procedimento.
Ele pediu para que eu ficasse apenas de cueca.
Achei desconfortável, mas aceitei.
Depois, pediu que eu tirasse também a cueca, dizendo que aquilo era completamente normal naquele tipo de atendimento.
Naquele instante, eu me lembro de pensar na porta trancada.
Mas continuei.
Talvez porque, muitas vezes, a vítima tente convencer a si mesma de que está exagerando. De que está interpretando tudo errado. De que precisa parecer educada. De que não pode criar um constrangimento sem ter certeza do que está acontecendo.
Eu imaginei que ele cobriria meu corpo com uma toalha.
Não aconteceu.
A sala estava em silêncio. Não havia câmeras. Não havia equipe. Não havia ninguém além de nós dois.
A ideia daquela publicidade era justamente relatar a experiência depois da sessão.
Mas a experiência deixou de ser profissional muito rápido.
Enquanto fazia a massagem, ele começou a fazer perguntas íntimas demais.
Perguntas sobre minha sexualidade.
Sobre preferências pessoais.
Sobre coisas que não tinham qualquer relação com um procedimento terapêutico.
Meu desconforto aumentava a cada minuto.
Até que ele começou a massagear áreas extremamente próximas da minha região íntima e disse, com naturalidade, que “se eu tivesse uma ereção, aquilo seria normal”.
Eu lembro da sensação exata do meu corpo naquele momento:
eu congelei.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de explicar para quem nunca passou por algo assim.
As pessoas imaginam reação.
Grito.
Empurrão.
Fuga.
Mas o medo também paralisa.
O choque paralisa.
A vulnerabilidade paralisa.
Ele era muito maior do que eu. A porta estava trancada. Não havia ninguém ali. E em algum lugar dentro da minha cabeça, meu corpo entrou em estado de sobrevivência.
Até que ele começou a tocar diretamente nas minhas partes íntimas.
E eu não consegui reagir.
Durante muito tempo, a pessoa que eu mais culpei fui eu mesmo.
Eu me perguntava:
“Por que eu não saí correndo?”
“Por que eu não empurrei ele?”
“Por que eu não denunciei?”
“Por que eu fui tão fraco?”
Mas hoje eu entendo que vítimas não reagem todas da mesma maneira.
Algumas lutam.
Outras gritam.
E algumas congelam completamente.
O congelamento também é uma resposta do trauma.
Saí daquela clínica carregando uma sensação impossível de explicar. Como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim junto com a minha capacidade de entender o que tinha acontecido.
E o mais doloroso talvez seja saber que aquela clínica continua existindo até hoje.
Que ele continua atendendo pessoas.
Enquanto eu precisei passar anos tentando convencer a mim mesmo de que aquilo realmente foi grave.
Porque, mais uma vez, existia o silêncio.
O silêncio de ser homem.
O silêncio da vergonha.
O silêncio de achar que ninguém acreditaria.
O silêncio de sentir culpa por algo que nunca deveria ter sido minha culpa.
Existem experiências que não terminam quando você vai embora do lugar.
Algumas continuam acontecendo dentro da sua cabeça por anos.
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O TERCEIRO SILÊNCIO

Esse é o silêncio mais difícil de escrever.
Porque ele não envolve apenas assédio.
Envolve manipulação emocional.
Abuso de poder.
Religião.
Culpa.
Medo.
E a tentativa cruel de invalidar quem eu era.
Dois anos atrás, eu trabalhava como gerente em uma grande loja de moda. Era um lugar onde eu gostava de estar. Eu gostava da equipe, da rotina, da marca, do movimento da loja. Existia orgulho em ocupar aquele cargo.
A proprietária da loja tinha um carinho muito grande por mim. Pelo menos era isso que eu acreditava.
Ela dizia confiar em mim. Me acolhia. Conversava comigo sobre assuntos pessoais. E foi ela quem me apresentou a uma religião na qual dizia enxergar caminhos espirituais e respostas para a vida.
E eu preciso deixar uma coisa muito clara:
o problema nunca foi a religião.
O que aconteceu comigo foi sobre pessoas usando fé, influência e poder de maneira abusiva.
E talvez isso tenha sido uma das partes mais dolorosas de tudo:
a mistura entre confiança emocional e manipulação.
Com o tempo, ela começou a fazer comentários frequentes sobre minha sexualidade.
Dizia que eu não era gay.
Que meu casamento não era baseado em amor verdadeiro.
Que eu estava vivendo uma vida “equivocada”.
E que um dia ela me mostraria qual era o meu “verdadeiro caminho”.
No começo, eu tentava relevar.
Transformava em brincadeira.
Mudava de assunto.
Sorria sem graça.
Mas existe um momento em que certos comentários deixam de ser opiniões e começam a virar violência psicológica.
E o problema é que ela não era apenas alguém do convívio espiritual.
Ela era minha chefe.
Existia uma relação de poder ali.
O meu salário vinha daquele lugar.
Minha estabilidade profissional dependia daquele ambiente.
E eu tinha medo de perder tudo.
Até que aconteceu a situação que mais me destruiu emocionalmente.
Durante um encontro ligado à prática religiosa, ela pediu para que uma mulher que também frequentava aquele ambiente participasse de uma espécie de “provação”.
Eu não quero expor essa mulher porque hoje eu entendo que ela também estava inserida naquele ambiente de manipulação emocional.
Mas naquele momento, tudo parecia surreal.
Ela pediu para que essa mulher ficasse apenas de sutiã e saia. Depois, pediu que ela dançasse e esfregasse o corpo no meu.
E dizia, o tempo inteiro, que iria provar que eu “reagiria” a uma mulher.
Que aquilo mostraria quem eu realmente era.
Eu lembro da vergonha.
Da sensação de invasão.
Da vontade de desaparecer dali.
Porque aquilo não era espiritualidade.
Aquilo era controle.
Era uma tentativa de apagar minha identidade usando autoridade emocional, religiosa e profissional ao mesmo tempo.
E talvez o mais difícil de admitir seja que eu permaneci ali.
Não porque eu queria.
Mas porque o medo paralisa.
Eu tinha medo de contrariar.
Medo de perder meu trabalho.
Medo de me tornar um problema dentro da empresa.
Medo de ser afastado daquele ambiente profissional que eu gostava tanto.
Então eu suportava situações que, no fundo, já estavam me destruindo emocionalmente.
E essa talvez tenha sido a experiência que mais deixou marcas profundas em mim.
Porque ela ultrapassou o corpo.
Ela atingiu minha identidade.
Durante muito tempo, eu me senti culpado. Como se eu tivesse permitido aquilo acontecer. Como se o erro fosse meu por não ter saído imediatamente, por não ter enfrentado, por não ter denunciado.
Mas hoje eu entendo que pessoas manipuladas emocionalmente nem sempre conseguem reagir com clareza enquanto estão vivendo o abuso.
Principalmente quando existe dependência emocional, profissional e psicológica envolvida.
Depois disso, eu desabei.
Eu me afastei das pessoas.
Me isolei.
Parei de conseguir funcionar emocionalmente como antes.
Foi a primeira vez que meu psicológico realmente entrou em colapso.
Comecei acompanhamento com terapeuta. Depois com psiquiatra. Vieram diagnósticos, medicações, crises emocionais e uma depressão profunda que me fez perder partes de mim que eu nem sabia que poderiam desaparecer.
E talvez o mais cruel em situações assim seja justamente isso:
por fora, a vida continua.
As pessoas seguem trabalhando.
A loja continua funcionando.
O mundo continua girando.
Enquanto por dentro você está tentando sobreviver ao que aconteceu.
Esse foi o silêncio que mais me destruiu.
Porque não tentaram apenas ultrapassar meus limites.
Tentaram me convencer de que eu não tinha o direito de existir exatamente como eu sou.
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O GRITO

Durante muito tempo, achei que aqueles silêncios tinham vencido.
Achei que as humilhações, os abusos emocionais, o medo e os traumas tinham destruído partes minhas de forma irreversível. E talvez algumas partes realmente tenham morrido.
A forma inocente como eu confiava nas pessoas.
A capacidade de ignorar dores emocionais.
A facilidade de entrar em ambientes sem carregar medo.
Depois do último episódio, eu desabei.
Vieram crises emocionais que eu não sabia explicar. Vieram os dias em que levantar da cama parecia impossível. Vieram a depressão, o isolamento, a sensação constante de cansaço psicológico.
Eu me afastei de muita coisa.
Principalmente de mim mesmo.
Foi nesse momento que comecei terapia. Depois veio o acompanhamento psiquiátrico. Pela primeira vez na vida, precisei admitir que sozinho eu não estava conseguindo continuar.
E talvez essa tenha sido uma das maiores dores:
aceitar que eu precisava de ajuda para sobreviver emocionalmente.
Porque durante muito tempo eu aprendi a parecer forte.
Aprendi a sorrir mesmo destruído.
Aprendi a trabalhar mesmo em colapso.
Aprendi a fingir normalidade enquanto tudo dentro de mim gritava.
Mas foi justamente quando parei de fingir que comecei, lentamente, a voltar para a vida.
Eu não posso dizer que me curei completamente de tudo.
Existem memórias que ainda doem.
Existem situações que ainda me atravessam em silêncio.
Existem marcas que talvez nunca desapareçam totalmente.
Trauma não desaparece como em um filme.
A gente aprende a continuar apesar dele.
E talvez seja exatamente isso que significa sobreviver.
Foi nesse processo que nasceu a LA VITA.
Muito mais do que uma loja, ela se tornou uma extensão da minha reconstrução. Cada detalhe daquele espaço carrega partes minhas que eu precisei reaprender a acreditar.
A LA VITA nasceu no meio do caos emocional.
Nasceu quando eu já não sabia mais se conseguiria me reencontrar.
Nasceu quando eu precisava provar para mim mesmo que minha vida não terminaria na dor causada por outras pessoas.
E talvez seja por isso que ela tenha tanto significado para mim.
Porque enquanto tentaram me silenciar, eu construí algo que me devolveu voz.
Enquanto tentaram me diminuir, eu construí um espaço onde voltei a enxergar valor em mim mesmo.
Enquanto eu achava que tinha perdido minha força, eu estava, sem perceber, reaprendendo a viver.
Hoje, quando olho para minha loja iluminada, eu não vejo apenas roupas, vitrines ou uma marca.
Eu vejo sobrevivência.
Vejo alguém que quase desistiu, mas decidiu permanecer.
Vejo as cicatrizes de alguém que ainda está aprendendo a se reconstruir todos os dias.
Porque essa história não termina dizendo que eu venci tudo.
Ela termina dizendo que eu escolhi continuar.
E às vezes continuar já é um ato gigantesco de coragem.
Hoje eu entendo que minha maior vitória não foi apagar o que vivi.
Foi não permitir que aquilo destruísse completamente a minha capacidade de seguir em frente.
A LA VITA se tornou meu grito.
Meu grito de liberdade.
Meu grito de reconstrução.
Meu grito de permanência.
E talvez, pela primeira vez em muitos anos, eu esteja finalmente aprendendo a existir sem precisar me esconder em silêncio.
Por Matheus Abrahão




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