De volta à ditadura da magreza ?

A moda celebrou a diversidade. Agora, corpos cada vez mais magros voltam às passarelas, campanhas e redes sociais. O que aconteceu no caminho?
A volta da ditadura da magreza
Por Matheus Abrahão
Durante alguns anos, parecia que a moda finalmente tinha entendido uma coisa simples: corpos existem em plural. Nas passarelas, nas campanhas e nas vitrines, começamos a ver mulheres maiores, mulheres maduras, pessoas trans, corpos reais, corpos com história. Ainda era pouco, ainda era desigual, mas havia um caminho. E, de repente, parece que alguém apertou o botão de voltar.
A magreza extrema voltou a ser tratada como sofisticação. Não aquela magreza natural, saudável, possível para alguns corpos. Mas uma magreza dura, exausta, quase cadavérica, vendida como elegância, disciplina e sucesso. Atrizes, cantoras, influenciadoras e modelos aparecem cada vez menores, muitas vezes celebradas por “secarem”, como se o desaparecimento do corpo fosse uma conquista estética.
O mais perigoso é que esse retorno não veio sozinho. Ele chegou junto com a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos como semaglutida e tirzepatida, que podem ser importantes no tratamento da obesidade e de doenças metabólicas, mas que passaram a circular também como atalho estético. E quando um tratamento médico vira tendência de beleza, o risco deixa de ser individual. Vira cultura.
Não se trata de demonizar a medicina. Esses medicamentos têm indicação real, podem ajudar pacientes e precisam ser levados a sério. O problema começa quando a caneta sai do consultório e entra no imaginário da pressa: “quero emagrecer rápido”, “quero secar para o verão”, “quero caber na roupa”, “quero ficar com cara de rica”. Aí o tratamento deixa de ser cuidado e passa a ser obediência a uma nova ordem visual.
Os números mostram que não é só impressão. Um levantamento da Vogue Business, repercutido pelo The Guardian, analisou 9.038 looks em 198 desfiles femininos e apontou que 97,1% foram apresentados por modelos straight-size, entre os tamanhos 0 e 4 dos EUA. Apenas 0,9% foram plus-size e 2% mid-size. Ou seja: depois de tanto discurso sobre diversidade, a passarela voltou a ser quase inteiramente ocupada por um único tipo de corpo. The Guardian
Esse dado é simbólico porque a moda não apenas veste o corpo. A moda educa o olhar. Quando a passarela e a mídia repetem um corpo só, o consumidor começa a se olhar como erro. O quadril vira problema. O braço vira excesso. A barriga vira falha moral. A mulher de 40, 50, 60 anos, que finalmente começava a se ver representada, volta a receber a mensagem de que precisa diminuir para ser aceita.
E é aí que a caneta encontra terreno fértil. Ela aparece como promessa: menos fome, menos peso, menos volume, menos corpo. Só que medicamento não é filtro de Instagram. Não é acessório de nécessaire. Não é fórmula mágica para entrar em um vestido.
Nos Estados Unidos, a FDA, agência reguladora de medicamentos, alertou sobre erros de dosagem com semaglutida manipulada. Segundo a agência, houve relatos de eventos adversos, alguns com hospitalização, relacionados a overdoses causadas por pacientes que mediram e aplicaram doses erradas ou por profissionais que calcularam mal a dose. Em alguns casos, pacientes aplicaram de cinco a vinte vezes a dose pretendida. Os sintomas relatados incluíram náuseas, vômitos, dor abdominal, desmaio, desidratação, pancreatite aguda e cálculos biliares. FDA
Um estudo publicado no Journal of the American Pharmacists Association descreveu três casos de erro de administração de semaglutida manipulada para emagrecimento. Dois pacientes aplicaram dez vezes a dose indicada. Todos tiveram sintomas importantes, como náuseas, vômitos e dor abdominal por dias; um deles precisou procurar atendimento e recebeu medicação e soro intravenoso. PubMed
Os centros de intoxicação dos Estados Unidos também registraram aumento expressivo de chamadas relacionadas a medicamentos GLP-1. A America’s Poison Centers informa que houve aumento de quase 1.500% nas ligações desde 2019 envolvendo overdose ou efeitos adversos de medicamentos injetáveis para perda de peso. America’s Poison Centers
E o problema não se limita ao uso incorreto. Existe também o mercado paralelo. A FDA alerta que versões não aprovadas, manipuladas ou falsificadas de GLP-1 podem não passar por avaliação de segurança, eficácia e qualidade. A agência também informa ter recebido centenas de relatos de eventos adversos associados a versões manipuladas de semaglutida e tirzepatida. FDA
Na Europa, casos de Ozempic falsificado acenderam outro alerta. A Reuters noticiou que autoridades austríacas investigaram canetas falsas vendidas como Ozempic que, segundo o processo, continham insulina em vez de semaglutida. Mulheres que receberam as aplicações sofreram danos temporários, e a agência de segurança em saúde da Áustria já havia relatado hospitalizações com sintomas compatíveis com intoxicação por insulina, como hipoglicemia. Reuters
No Brasil, a discussão também é urgente. A Folha de S.Paulo publicou reportagem sobre versões paraguaias de tirzepatida que circulam de forma irregular. Em uma análise independente feita pela Unicamp, o produto Gluconex apresentou concentração de tirzepatida 60% maior do que a encontrada no medicamento original, diferença que pode representar risco à saúde. A mesma reportagem mostrou que apreensões desses medicamentos na fronteira aumentaram 860,8% em um ano, passando de 7.479 para 71.860 unidades. Folha de S.Paulo
Tudo isso acontece enquanto a sociedade tenta fingir que é apenas “autocuidado”. Mas autocuidado não deveria nascer do pânico de engordar. Autocuidado não deveria exigir segredo, contrabando, dose improvisada, compra por link duvidoso ou acompanhamento inexistente. Autocuidado não pode ser confundido com a tentativa de caber novamente em um padrão que sempre adoeceu mulheres.
O que assusta é perceber que a moda, que poderia ampliar possibilidades, muitas vezes volta a estreitar o espelho. Depois de tanta conversa sobre inclusão, voltamos a ver o corpo como cabide. O corpo que incomoda é apagado. O corpo maduro é corrigido. O corpo gordo é tolerado só quando serve como discurso de marketing. E, na prática, a imagem que volta a circular como desejo é a da mulher que ocupa pouco espaço.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “quem está usando caneta?”. A pergunta é: por que tantas pessoas sentem que precisam desaparecer para serem vistas?
A medicina deve continuar existindo para tratar doenças, inclusive a obesidade, que é séria e merece cuidado. Mas a moda, a mídia e a publicidade precisam parar de transformar tratamento em tendência. Um medicamento pode ser prescrito por um médico. Um padrão de beleza, não. Esse é construído, repetido, vendido e, se necessário, recusado.
Porque se a moda voltar a glorificar a magreza extrema como sinônimo de luxo, ela não estará sendo moderna. Estará apenas repetindo uma violência antiga com embalagem nova.
Números que sustentam esta matéria
97,1% dos looks analisados em 198 desfiles femininos foram apresentados por modelos straight-size, segundo levantamento da Vogue Business repercutido pelo The Guardian.
0,9% dos looks foram apresentados por modelos plus-size.
Quase 1.500% foi o aumento de ligações para centros de intoxicação dos EUA relacionadas a overdose ou efeitos adversos de medicamentos injetáveis GLP-1 desde 2019.
De 5 a 20 vezes a dose pretendida foi o erro relatado em alguns casos de semaglutida manipulada analisados pela FDA.
60% maior foi a concentração de tirzepatida encontrada em uma versão paraguaia analisada pela Unicamp, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.
860,8% foi o aumento nas apreensões de canetas emagrecedoras na fronteira brasileira em um ano, segundo dados citados pela Folha de S.Paulo.
Referências consultadas
The Guardian — “A 360 turn: concern as fashion shows feature fewer plus-size models”
FDA — “Dosing errors associated with compounded injectable semaglutide products”
FDA — “Concerns with unapproved GLP-1 drugs used for weight loss”
America’s Poison Centers — “Glucagon-like Peptide-1 GLP-1 Agonists”
PubMed / Journal of the American Pharmacists Association — “Administration errors of compounded semaglutide reported to a poison control center”
Reuters — “Sellers of fake Ozempic to face charges in Austrian court”
Folha de S.Paulo — reportagem sobre Gluconex, tirzepatida paraguaia, análise da Unicamp e apreensões na fronteira
Ministério da Saúde — informações sobre disponibilização responsável de canetas emagrecedoras no SUS e necessidade de protocolo clínico
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A modelo não existe
Ela tem rosto perfeito, pele sem textura, cabelo no lugar, corpo sob medida e expressão milimetricamente construída. Veste bem, posa bem, vende bem. Só existe um detalhe: ela não existe.
A inteligência artificial entrou na moda não como uma promessa distante, mas como uma ferramenta diária. Ela já cria campanhas, editoriais, catálogos, vídeos, provadores virtuais, modelos digitais e influenciadoras que nunca pisaram em uma loja, nunca enfrentaram um casting, nunca acordaram cedo para fotografar uma coleção inteira. E talvez seja exatamente aí que mora o incômodo: a imagem continua linda, mas parte do trabalho humano começa a desaparecer por trás dela.
Não se trata de dizer que a IA acabou com a profissão de modelo, atriz, ator, fotógrafo, maquiador, stylist ou criador de conteúdo. Isso seria simplista. Pessoas continuam sendo indispensáveis. O problema é mais silencioso: a IA não precisa substituir todo mundo para afetar o mercado. Basta começar a ocupar aqueles trabalhos pequenos e médios que mantinham muita gente trabalhando.
Antes, uma loja contratava uma modelo para fotografar uma coleção. Chamava uma maquiadora, um fotógrafo, alguém para produzir os looks, alguém para editar. Uma influenciadora local fazia provador, gravava stories, mostrava a peça no corpo, falava com o público dela. Hoje, parte disso pode ser feita com uma imagem gerada em minutos. Um vestido que antes precisava ser fotografado em uma pessoa real pode aparecer em uma modelo artificial. Um catálogo que antes exigia equipe pode nascer de um prompt.
É claro que isso facilita. Para marcas pequenas, a IA pode ser uma ferramenta poderosa. Reduz custo, acelera processo, permite testar ideias, criar imagens melhores e competir visualmente com marcas maiores. O problema não está no uso da ferramenta. O problema está em fingir que ela não muda a economia de quem vivia da própria imagem, da própria presença, da própria criatividade.
A consultoria McKinsey já apontou que a inteligência artificial generativa pode acrescentar entre 150 e 275 bilhões de dólares aos lucros operacionais dos setores de moda e luxo nos próximos anos.*1 Ou seja: não estamos falando de brincadeira tecnológica. Estamos falando de uma transformação econômica profunda. A pergunta é: esse valor vai fortalecer apenas as empresas ou também vai proteger os profissionais que ajudaram a construir a linguagem visual da moda?
Em 2023, a Levi’s anunciou uma parceria com a Lalaland.ai para testar modelos geradas por inteligência artificial. A justificativa inicial era ampliar a diversidade de corpos, idades, tamanhos e tons de pele nas imagens dos produtos. Depois da repercussão negativa, a própria marca publicou uma correção dizendo que a IA não deveria ser vista como substituta da ação real necessária para diversidade, equidade e inclusão.*2
Esse caso resume bem o dilema. Se uma marca quer mostrar diversidade, por que não contratar pessoas diversas? Se quer mostrar corpos diferentes, por que criar corpos digitais em vez de pagar modelos reais? Quando a inclusão vira simulação, ela pode parecer bonita na campanha, mas não muda a vida de ninguém fora da tela.
Um estudo publicado no Journal of Contingencies and Crisis Management analisou justamente a crise da Levi’s com a Lalaland.ai e destacou que a parceria foi criticada por “baratear” a diversidade ao usar modelos geradas por IA em vez de pessoas reais.*3 É uma crítica importante, porque a moda já passou anos prometendo mais representatividade. Agora surge uma tecnologia capaz de entregar a aparência da diversidade sem necessariamente contratar a diversidade.
Esse é o ponto mais delicado: a IA pode criar qualquer corpo, qualquer rosto, qualquer idade, qualquer tom de pele. Mas se esse corpo não existe, ele não recebe cachê, não constrói carreira, não ganha visibilidade, não paga aluguel, não se torna referência para outras pessoas. A imagem parece inclusiva. A estrutura continua excludente.
Também existe a questão da verdade. Quando uma roupa aparece em uma modelo real, existe ali uma informação concreta: como o tecido cai, como a peça veste, como o corpo se move dentro dela. Quando a roupa aparece em uma modelo gerada por IA, o consumidor pode estar olhando para uma fantasia visual. Bonita, mas não necessariamente fiel. A imagem vende desejo; nem sempre vende realidade.
Isso não quer dizer que a IA deva ser proibida ou tratada como inimiga. Seria ingenuidade. A tecnologia já está aqui e pode ser extremamente útil. Pode ajudar uma marca pequena a produzir melhor. Pode permitir que um criador visualize uma campanha antes de investir em produção. Pode reduzir desperdício, testar combinações, criar referências, ampliar possibilidades estéticas e abrir portas para quem antes não tinha acesso a grandes estruturas de criação.
Mas ferramenta precisa ter limite. E principalmente: precisa ter transparência. Se uma modelo foi criada por IA, o público deveria saber. Se uma imagem de catálogo não mostra uma pessoa real vestindo a peça, isso deveria estar claro. Se a aparência de uma pessoa foi usada para treinar, replicar ou inspirar uma modelo digital, deveria existir consentimento e remuneração.
A própria McKinsey alerta que os modelos de IA podem produzir conteúdos convincentes, mas também errados, enviesados ou problemáticos, porque são treinados com grandes volumes de dados que carregam os próprios preconceitos da sociedade.*4 Na moda, isso é ainda mais sensível. Se os dados usados para gerar beleza vêm de uma história visual já marcada por corpos magros, jovens, brancos e padronizados, a IA pode apenas sofisticar o mesmo padrão antigo com aparência de novidade.
No fundo, a discussão não é sobre tecnologia. É sobre valor humano. Quem cria? Quem aparece? Quem recebe? Quem é substituído? Quem autoriza o uso da própria imagem? Quem lucra com esse novo corpo digital?
Talvez a frase “a modelo não existe” pareça futurista, mas ela já é cotidiana. Ela está no catálogo feito sem ensaio, na influenciadora virtual que divulga uma marca, na campanha que parece fotografia mas nunca teve câmera, no provador digital que mostra um caimento que talvez não exista. É bonito, prático e sedutor. Mas também pode ser perigoso quando nos acostumamos a consumir pessoas que não são pessoas, corpos que não são corpos, diversidade que não contrata ninguém.
A moda sempre trabalhou com ilusão. A diferença é que antes havia alguém dentro dela: uma modelo cansada depois de horas em pé, uma maquiadora ajustando a pele, um fotógrafo buscando luz, uma vendedora fazendo provador, uma influenciadora gravando do espelho de uma loja. Agora, parte dessa ilusão pode ser criada sem ninguém.
E talvez essa seja a pergunta que a moda precisa responder antes de se encantar demais com a própria tecnologia: se a imagem vende, mas ninguém existiu para fazê-la acontecer, que tipo de futuro estamos comprando?
Fontes consultadas
*1 The Guardian / McKinsey — impacto da IA generativa na moda e no luxo
*2 Levi Strauss & Co. — comunicado sobre parceria com Lalaland.ai e esclarecimento posterior
*3 Journal of Contingencies and Crisis Management / Wiley — estudo sobre a crise Levi’s e Lalaland.ai
*4 McKinsey — definição, riscos e limitações da inteligência artificial generativa
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O luxo perdeu o desejo
Durante muito tempo, o luxo viveu de uma promessa quase mágica: não era apenas comprar uma bolsa, um sapato, uma joia ou uma roupa. Era comprar pertencimento, história, sonho, silêncio, raridade. O luxo não precisava explicar demais. Ele fazia desejar.
Mas alguma coisa mudou.
Nos últimos anos, muitas marcas de luxo subiram preços, reduziram acesso, endureceram a comunicação e apostaram tanto na ideia de exclusividade que acabaram perdendo parte do encanto. O produto ficou mais caro, mas nem sempre ficou mais especial. A vitrine continuou impecável, mas a emoção esfriou. E quando o consumidor olha para uma peça e sente mais cálculo do que desejo, o luxo começa a perder sua força mais importante.
Os números mostram que isso não é apenas impressão. Segundo estudo da Bain & Company, em parceria com a Altagamma, a base global de consumidores de luxo encolheu cerca de 50 milhões de pessoas entre 2022 e 2024, passando de aproximadamente 400 milhões para 350 milhões de consumidores.*1 É um dado simbólico porque mostra que o problema não está só na economia. Está também na relação emocional entre marca e cliente.
A Reuters, ao repercutir o mesmo estudo, informou que as vendas globais de bens pessoais de luxo deveriam cair 2% em 2024, tornando o ano um dos mais fracos do setor desde a crise de 2008-2009, excluindo o período da pandemia.*2 Para um mercado que se acostumou a crescer quase como se fosse imune ao mundo, a queda acendeu um alerta: talvez o consumidor não tenha parado de gostar de luxo. Talvez ele tenha parado de aceitar qualquer coisa em nome do luxo.
A estratégia de aumento de preços teve papel central nessa mudança. Durante anos, muitas marcas elevaram seus produtos a faixas cada vez mais altas, tentando reforçar status e margem. Só que existe uma diferença entre ser exclusivo e parecer abusivo. Quando uma peça sobe de preço sem entregar mais qualidade, mais atendimento, mais construção, mais história ou mais emoção, o consumidor percebe. E quando percebe, o desejo começa a virar desconfiança.
A Bain aponta que mais de 50% dos consumidores passaram a considerar as marcas de luxo caras demais, além de relatarem uma desconexão com a essência e a herança das marcas.*1 Esse ponto é fundamental. O luxo não perdeu desejo apenas porque ficou caro. Ele perdeu desejo porque, em muitos casos, ficou caro e previsível.
A geração mais jovem sentiu isso com força. O consumidor aspiracional, aquele que talvez não comprasse sempre, mas sonhava, acompanhava, desejava e fazia esforço por uma peça especial, começou a se afastar. Parte desse público migrou para brechós de luxo, second hand, marcas independentes, produtos com melhor custo-benefício e experiências. A peça com logo já não convence sozinha. O nome da marca já não basta.
O Le Monde destacou que vários grupos de luxo sentiram o impacto do novo cenário. Segundo a reportagem, LVMH registrou recuo de atividade nos nove primeiros meses de 2024, enquanto Kering, dona da Gucci, sofreu queda mais forte. Hermès, por outro lado, resistiu melhor, justamente por se apoiar em uma clientela mais rica e em uma percepção de raridade mais consistente.*3 Isso mostra que o luxo não acabou. O que acabou foi a facilidade de vender desejo apenas pelo preço alto.
O consumidor está mais atento. Ele compara acabamento, tecido, caimento, experiência, atendimento e narrativa. Ele quer entender por que aquilo custa tanto. E essa pergunta, que antes parecia vulgar dentro do universo do luxo, hoje se tornou inevitável: vale isso tudo?
Talvez o luxo tenha confundido preço com desejo. Preço alto pode criar distância, mas não cria automaticamente encanto. Desejo nasce de uma combinação mais delicada: beleza, escassez, qualidade, pertencimento, memória e emoção. Quando uma marca aumenta o preço, mas entrega uma experiência fria, um atendimento impessoal, coleções repetitivas e produtos que parecem feitos mais para margem do que para sonho, ela enfraquece o próprio mito.
Existe também um cansaço visual. Por muito tempo, o luxo vendeu excesso, ostentação e identificação imediata. Depois, veio o chamado “quiet luxury”, com peças discretas, tons neutros, alfaiataria limpa e ausência de logotipos. Mas até o silêncio virou fórmula. Quando todo mundo passa a vender a mesma neutralidade, o luxo também perde personalidade.
O desejo precisa de surpresa. Precisa de alma. Precisa de um pouco de mistério. E boa parte do luxo recente parece ter trocado mistério por estratégia.
Ao mesmo tempo, o consumidor não está abandonando o prazer. Ele continua buscando beleza, conforto, qualidade e experiência. A própria Bain observou que experiências de luxo, como hospitalidade e gastronomia, vêm se saindo melhor do que muitos bens materiais.*2 Em 2026, a consultoria apontou que o mercado passa por uma mudança cultural: consumidores estão valorizando mais experiências do que posse, e o significado do luxo está sendo redefinido.*4
Isso talvez explique o momento atual. O luxo perdeu desejo quando deixou de parecer experiência e passou a parecer transação. Quando a compra deixa de emocionar e vira apenas comprovação de poder aquisitivo, algo se quebra. O cliente pode até pagar. Mas pagar não é o mesmo que desejar.
Para marcas menores, boutiques e curadorias independentes, existe uma lição importante aqui. O desejo não mora apenas no preço. Mora na forma como a cliente é recebida, na história que se conta, na escolha da peça, no cuidado do atendimento, na sensação de exclusividade real. Uma loja pequena pode criar desejo quando faz a cliente se sentir vista. Uma marca gigante pode perder desejo quando trata todo mundo como número.
O novo luxo talvez não esteja no inacessível. Talvez esteja no significativo. Na peça bem escolhida. No atendimento que lembra o nome da cliente. Na roupa que veste bem o corpo real. Na curadoria que não tenta vender qualquer coisa. No produto que tem qualidade, mas também tem intenção.
O luxo não morreu. Mas ele está sendo questionado. E talvez isso seja saudável. Porque, por trás da vitrine perfeita, o consumidor começou a perguntar: isso ainda me encanta ou só quer me impressionar?
Quando o luxo perde o desejo, ele vira apenas preço. E preço, sozinho, não sustenta sonho por muito tempo.
Números que sustentam esta reportagem
A base global de consumidores de luxo caiu cerca de 50 milhões entre 2022 e 2024, segundo Bain & Company.
As vendas de bens pessoais de luxo tiveram previsão de queda de 2% em 2024, um dos anos mais fracos do setor desde a crise de 2008-2009, excluindo a pandemia.
Mais de 50% dos consumidores ouvidos pela Bain consideram as marcas de luxo caras demais.
Apenas cerca de um terço das marcas de luxo cresceu em 2024, contra 95% no período de recuperação de 2021-2022.
O gasto com experiências de luxo segue mais resiliente do que a compra de muitos bens materiais.
Fontes consultadas
*1 Bain & Company — Luxury Report 2024: Rebuilding the Foundations of Luxury
*2 Reuters — Global luxury sales to fall 2% in 2024, among weakest years on record, Bain says
*3 Le Monde — Le luxe a perdu 50 millions de clients en deux ans
*4 Bain & Company / Altagamma — Global luxury stabilizes amid compounding disruptions as brands race to amplify meaning and rebuild relevance
*5 Altagamma — Studies and research, Worldwide Luxury Market Monitor
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Quem escolheu o seu estilo?
Existe uma pergunta que quase ninguém faz diante do espelho: esse é meu estilo ou alguém escolheu isso por mim?
A gente passa a vida acreditando que se veste por gosto. Que escolhe a cor porque gosta da cor, o corte porque combina, o comprimento porque prefere, o sapato porque achou bonito. Mas será que é só isso? Ou será que, antes mesmo da nossa escolha, alguém já tinha desenhado os limites do que poderíamos desejar?
Desde cedo, o corpo recebe ordens. Algumas vêm de casa, outras da rua, outras da moda, outras da internet. “Isso não é para o seu corpo.” “Essa cor não combina com você.” “Depois de certa idade não pega bem.” “Isso é muito justo.” “Isso é muito largo.” “Isso é roupa de mulher.” “Isso é roupa de homem.” “Isso chama muita atenção.” “Isso te envelhece.” “Isso te engorda.” “Isso não é elegante.”
E, de frase em frase, muita gente aprende a se vestir não pelo desejo, mas pela permissão.
O estilo, que deveria ser uma forma de liberdade, muitas vezes vira um conjunto de regras invisíveis. A pessoa olha para uma peça e não pergunta “eu gosto?”. Pergunta “vão achar estranho?”. Não pergunta “isso me representa?”. Pergunta “isso é adequado?”. Não pergunta “isso me faz sentir viva?”. Pergunta “isso disfarça o que eu aprendi a esconder?”.
A moda tem esse poder ambíguo. Ela liberta, mas também aprisiona. Ela oferece possibilidades, mas também cria padrões. Ela diz “seja você”, mas logo em seguida mostra qual versão de você é mais aceita, mais vendável, mais admirada, mais fotografável.
Hoje, essa pressão ficou ainda mais sofisticada. Antes, a influência vinha da revista, da novela, da vitrine, da amiga, da mãe, da vendedora, da celebridade. Agora vem também do algoritmo. A tela aprende o que você olha, repete o que você deseja, insiste no que você quase comprou, empurra tendências até que elas pareçam escolha pessoal.
De repente, todo mundo ama a mesma cor. Todo mundo quer a mesma bolsa. Todo mundo chama o mesmo blazer de essencial. Todo mundo descobre que precisa de uma calça que, até ontem, ninguém precisava. E a gente confunde repetição com gosto.
O algoritmo não obriga ninguém a usar nada. Ele é mais discreto. Ele sugere. Repete. Seduz. Normaliza. Quando percebemos, aquilo que parecia uma vontade espontânea talvez fosse apenas uma imagem vista tantas vezes que passou a morar dentro da nossa cabeça.
Mas o estilo verdadeiro não nasce da obediência. Nasce do encontro entre quem você é, quem você foi, quem você quer ser e quem você ainda tem coragem de experimentar.
Talvez por isso seja tão difícil se vestir de verdade. Porque escolher uma roupa não é apenas cobrir o corpo. É assumir uma narrativa. É dizer algo antes mesmo de falar. É ocupar um espaço. É permitir que o mundo veja um pedaço da sua identidade.
E nem sempre a gente está pronto para ser visto.
Há mulheres que passaram a vida usando preto porque ouviram que emagrece. Outras abandonaram estampas porque disseram que chamavam atenção demais. Algumas nunca usaram uma calça ampla porque aprenderam que precisavam marcar a cintura. Outras nunca usaram uma roupa justa porque passaram a vida tentando desaparecer. Há quem vista a idade que esperam dela, não a idade que sente. Há quem vista a profissão, o casamento, a maternidade, o medo, a religião, a classe social, a opinião dos outros.
E há também quem nunca tenha parado para pensar se gosta mesmo do que veste ou se apenas se acostumou.
O armário de uma pessoa conta uma história. Às vezes, uma história de liberdade. Outras vezes, uma história de contenção. Existem roupas compradas por impulso, roupas compradas para caber em um grupo, roupas compradas para parecer mais séria, mais magra, mais jovem, mais rica, mais discreta, mais desejável. Existem peças que nunca foram usadas porque pertenciam a uma versão de coragem que ainda não chegou.
E existem aquelas roupas que a gente veste e imediatamente se reconhece. Não porque são tendência. Não porque alguém aprovou. Mas porque algo encaixa. A postura muda. O olhar muda. A pessoa não parece fantasiada de alguém melhor. Parece mais próxima de si.
Esse talvez seja o ponto central: estilo não é parecer outra pessoa. É conseguir aparecer como você.
A moda erra quando tenta transformar estilo em fórmula. “Toda mulher precisa ter.” “Peças obrigatórias.” “O que não usar depois dos 40.” “Como parecer rica.” “Como parecer elegante.” “Como alongar.” “Como disfarçar.” “Como esconder.” Há sempre uma promessa de correção. Como se o corpo fosse um problema e a roupa fosse uma solução.
Mas roupa não deveria existir apenas para corrigir. Roupa também existe para celebrar. Para brincar. Para provocar. Para proteger. Para revelar. Para acompanhar fases. Para marcar renascimentos. Para dizer: hoje eu não quero passar despercebida. Ou: hoje eu quero silêncio. Ou: hoje eu quero conforto. Ou: hoje eu quero poder.
Estilo não é ter muitas roupas. Não é seguir todas as tendências. Não é comprar caro. Não é acertar sempre. Estilo é coerência emocional. É quando existe alguma verdade entre a pessoa e aquilo que ela veste.
E essa verdade pode mudar. Aliás, deve mudar. Ninguém é a mesma pessoa a vida inteira. O que fazia sentido aos 20 pode não fazer aos 40. O que parecia ousado ontem pode parecer pequeno hoje. O que antes era insegurança pode virar assinatura. O estilo amadurece junto com a pessoa, se a pessoa permitir.
O problema é que muitas vezes a moda vende mudança, mas cobra permanência. Quer que você seja jovem para sempre, magra para sempre, atual para sempre, desejável para sempre, dentro de um padrão para sempre. Só que a vida real não funciona assim. O corpo muda. A rotina muda. O desejo muda. A coragem muda.
E talvez o estilo mais interessante seja justamente aquele que acompanha essas mudanças sem pedir desculpas.
Existe uma beleza enorme em alguém que se veste com consciência. Não necessariamente com extravagância. Não necessariamente com minimalismo. Consciência não tem uma estética única. Pode estar em uma camisa branca impecável, em uma pantalona ampla, em um vestido estampado, em um acessório herdado, em uma sandália confortável, em uma peça que mistura masculino e feminino, em uma cor que ninguém esperava.
O que importa é a pergunta por trás da escolha: isso me aproxima de mim ou me afasta?
Quando uma cliente entra em uma loja, ela muitas vezes diz que procura uma roupa. Mas, no fundo, procura uma sensação. Quer se sentir bonita, segura, atual, respeitada, desejada, elegante, confortável, possível. O trabalho da moda, quando feito com sensibilidade, não é empurrar uma tendência. É ajudar essa pessoa a se escutar.
Porque estilo não se impõe. Estilo se revela.
Talvez a grande elegância esteja em desaprender. Desaprender a vestir culpa. Desaprender a obedecer idade. Desaprender a esconder o corpo como se ele estivesse errado. Desaprender que só existe um tipo de beleza, um tipo de feminilidade, um tipo de sofisticação, um tipo de corpo digno de roupa bonita.
E depois reaprender.
Reaprender a perguntar: eu gosto disso? Eu me sinto bem? Essa peça conversa comigo? Essa escolha é minha? Ou eu só estou tentando ser aceita por um olhar que nem sei mais de quem é?
No fim, vestir-se é um ato íntimo. Mesmo quando ninguém percebe, a roupa toca a pele. Antes de comunicar algo ao mundo, ela comunica algo para quem usa. Ela pode dizer “se esconda”. Pode dizer “se comporte”. Mas também pode dizer “apareça”. “Respire.” “Experimente.” “Você pode.”
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “qual é o seu estilo?”. Talvez seja: quem escolheu o seu estilo?
Se a resposta vier do medo, ainda dá tempo de trocar de roupa.
Se vier do desejo, talvez você finalmente tenha se encontrado no espelho.
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Entre corpos pressionados a desaparecer, imagens criadas para substituir pessoas, marcas que confundiram preço com desejo e estilos que talvez nem tenham sido escolhidos por nós, fica uma certeza: a moda só volta a fazer sentido quando coloca o humano no centro.
Matheus Abrahão




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